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Perguntas simples: como seria actualmente o Zé Povinho?

Sexta-feira, 11.06.10

 

Parece que o Zé Povinho de Bordalo Pinheiro vai fazer 135 anos amanhã. Hoje seria possível sintetizar o português típico, o português médio, e criar cartoons assim? Aquele gesto rebelde, desconfiado, irónico, e com sentido da realidade?

À primeira vista o Zé Povinho é percebido como pobre, irremediavelmente e tristemente pobre, mas essa é só a primeira impressão. Porque o Zé Povinho é, acima de tudo, um realista que sobrevive em condições hostis e adversas, faz o que pode com as possibilidades que tem à mão, é aliás muito criativo e ágil, é assim que o imaginamos, cheio de recursos de um raciocínio rápido e desembaraçado.

Podemos também ver um lado maroto, manhoso, capaz de rodear algumas regras básicas de convívio social? Sim, esse lado pode estar lá também. Mas vejo-o mais como um dos recursos por vezes necessários para sobreviver. Creio que o Zé Povinho entendia a "coesão", a palavra mais utilizada no discurso presidencial, porque era a única forma de sobrevivência comunitária. O povo estava sobretudo entregue a si próprio e à sua capacidade de trabalho. Haveria gestores do poder relativamente próximos, na altura o poder político estava mais diversificado pelo país, mas a sua base de sobrevivência era a sua capacidade de trabalho e a sua "coesão" comunitária.

 

Creio também que hoje o cidadão comum tem a noção da importância da "coesão nacional", mas muitas comunidades esfumaram-se numa nova organização territorial e política. O seu progressivo desenraizamento dificulta a tal "coesão nacional", a diferença económica e política entre-regiões também dificulta essa "coesão nacional", a distância de rendimentos e de direitos de uma "nova elite estatal" e o resto dos cidadãos também dificulta a tal "coesão nacional".

Pessoalmente, ao ouvir ontem o discurso presidencial senti uma enorme vontade de repetir o gesto do Zé Povinho a toda esta cultura republicana. Então, somos nós os cidadãos que ainda temos de ser os supostos destinatários do discurso da "coesão nacional"? O Presidente não assistiu quietinho e caladinho a todo o processo de rupturas nacionais (litoral-interior e norte-sul), à erosão de valores culturais estruturais, à fractura essencial na tal "solidariedade" entre "novos ricos" e "novos pobres"?

Pois é, nós só servimos de supostos destinatários de um discurso que era todo ele "recadinhos ao governo". E sabem porquê? Porque na ausência de relações institucionais, serve o cidadão comum como o único elo de ligação de um discurso dirigido aos gestores do poder. E tem sido assim em todos os discursos.

 

Esta cultura republicana não respeita o cidadão comum. Trata-o com o paternalismo de quem nem sequer o entende nem entende o país: território, cultura, história. O cidadão comum está sozinho, tal como o Zé Povinho de Bordalo Pinheiro, entregue a si próprio, só serve para pagar a factura de incompetências, caprichos e excentricidades das "novas elites" estatais. Com a agravante de ter parte do país desertificado, fechado, desactivado, e o poder concentrado em Lisboa. Com a agravante de metade da população estar desenraizada, no litoral ou noutros países.

Sim, o gesto do Zé Povinho seria o mais adequado a quem não revelou qualquer sensibilidade ou respeito pelo cidadão comum que diz representar. Só que não seria consequente. E também o Zé Povinho não se ficava por aí.

E se os deixássemos a falar sozinhos em palco e começássemos a pedalar por nós próprios? A não nos deixarmos abater pela mediocridade que nos impõem nem a entalar em impasses que nos escravizam?

Coesão é uns com os outros, os cidadãos uns com os outros, essa é a verdadeira coesão.

E nas próximas eleições, analisarmos muito bem quem esteve ao nosso lado e quem se colocou num pedestal de "novas elites" estatais que vivem à custa do contribuinte.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:46








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